sexta-feira, 11 de Maio de 2007

Mil folhas e um cimbalino

A propósito da rarefacção do espaço vital dos livros nos meios de imprensa - jornais generalistas ou imprensa especializada - leio e ouço o nacional-choradinho do costume, somos assim, não somos? mas ao mesmo tempo reparo que este fenómeno não é uma portuguesice excêntrica. No verdadeiro coração da indústria do livro - onde senão nos EUA? - também o crítico literário é hoje uma endangered specie. E, no entanto, não aflige por aí além os editores, não a ponto de os motivar para uma reacção concertada ou de diminuir o caudal de títulos que todos os anos produzem. A situação, que não me suscita um sentimento de tragédia, não me deixa sem perguntas, no entanto. Estas perguntas, para ser ligeiramente original como convém sempre que se fala de livros, não são duas-em-uma mas uma-em.duas . Têm a ver - ou tem a ver, you pick - com a determinação do valor do crítico na formação do gosto literário e com a identificação dos canais - ia dizer alternativos, mas na realidade são concorrentes, com o mesmo ou maior droit de cité que os dos suplementos literários ou publicações especializadas - que contribuem para essa formação.

O papel do crítico literário está, de há muito, overrated. Os êxitos de vendas de coisas como Dan Brown e Joanne Rowling (minha ex-vizinha, por acaso, e senhora não particularmente simpática, mas se alguns dos nossos melhores escritores são fascistas, como alguém já disse, porque não podem os piores ser antipáticos?) queimam-lhes os dedos e fazem questionar a indústria sobre a importância devida à causa. Porque é que não conseguem pôr as pessoas a ler livros que consideram bons? Porque é que se compram tantos Rebelos Pintos e tantos Equadores? Na realidade, os críticos literários não têm uma boa relação com os livros. Uns e outros dão-se mal e, pela minha experiência pessoal, sei que os críticos detestam os livros e os seus autores. Da mesma forma que os jornalistas desportivos também não gostam de futebol, os críticos literários não gostam de livros, gostam de um clube. Os livros são uma PITA que nem sempre conseguem esconder. É trabalho, e o trabalho é uma chatice antes ou em vez de ser uma alegria.

E eis-me chegado à segunda questão. A auto-gestão da formação do gosto literário não funciona, não quando existem tantos interesses em jogo, em particular dos editores e dos livreiros: são esses os verdadeiros promotores e agente do gosto literário. Mas isso fica para outro post.

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